Ser mãe de crianças autistas é um desafio repleto de amor, força e superação. Para Lourdes Evangelista de Jesus, moradora de Feira de Santana (BA) e mãe solo de Heitor (3 anos) e Isaac (5 anos), essa jornada se torna ainda mais intensa. Sem o apoio do pai das crianças e sem familiares por perto, ela enfrenta dificuldades diárias para garantir que seus filhos recebam o cuidado e o suporte necessários.
O Diagnóstico e a Aceitação
Lourdes percebeu os primeiros sinais do autismo em Isaac quando ele tinha 2 anos. “Ele chorava muito, se jogava no chão, tinha crises constantes. Ao mesmo tempo, andava na ponta dos pés e sacudia as mãozinhas. No início, eu não tinha conhecimento sobre autismo, mas fui pesquisando e entendi que eram características comuns.”
Com Heitor, o diagnóstico veio mais cedo. “Com cerca de 1 ano, ele batia muito a cabeça no berço, tanto ao acordar quanto ao dormir. Com 1 ano e meio, ainda não falava nada. Diferente do irmão mais velho, ele é não verbal. Aos 2 anos, levei ao neurologista, que confirmou o diagnóstico imediatamente. Apesar de já desconfiar, foi muito difícil ouvir aquilo, porque sempre existe aquela esperança de que não seja verdade.”

Os Desafios de Ser Mãe Solo de Dois Filhos Autistas
Criar duas crianças autistas sem apoio é uma realidade desgastante. “Eles necessitam de atenção constante, e como mãe solo, preciso trabalhar e cuidar deles ao mesmo tempo. Isso me sobrecarrega muito.” A falta de suporte da rede pública é um obstáculo constante. “Falam muito sobre apoio, mas na prática é diferente. Estou esperando há sete meses uma vaga para terapia e até agora nada. A fila de espera nunca anda. Enquanto isso, meus filhos vão regredindo.”
Lourdes tentou custear terapias particulares, mas os recursos eram limitados. “Eu só podia pagar fonoaudiologia para um e psicólogo para o outro. Mas eles precisam de terapia ocupacional e comportamental, que são as mais importantes no momento. Sem isso, o progresso é muito mais difícil.”

O Preconceito e a Falta de Inclusão
Além da luta por terapias, Lourdes enfrenta o preconceito no dia a dia. “Meus filhos nunca são convidados para festinhas. Meu filho mais velho quer brincar, mas quando se aproxima das outras crianças, elas se afastam. Isso machuca. As pessoas falam que não têm preconceito, mas na prática, têm sim. Os pais deveriam ensinar seus filhos a conviver com crianças autistas.”
Apesar das dificuldades, Lourdes tenta passar força para os filhos. “Antes, eu chorava e ficava deprimida. Hoje, ainda fico triste, mas aprendi a lidar. Tento explicar para eles, mas sei que a sociedade precisa mudar.”
A Esperança e a Luta por um Futuro Melhor
Cada conquista dos filhos é uma motivação para continuar. “A cada vitória, vejo que estou no caminho certo e que nunca podemos desistir. Sei que não é fácil, às vezes parece que estou carregando o mundo nas costas, mas preciso seguir. Tenho esperança de que meus filhos serão aceitos na sociedade, que estudarão, terão profissão e formarão suas próprias famílias, independente do autismo.”
Ela também faz um apelo por mais suporte: “Espero que os projetos saiam do papel, que as filas de espera não sejam tão longas. As crianças autistas e suas mães precisam de apoio real. Seguimos lutando para que esse dia chegue.”
A história de Lourdes Evangelista de Jesus é um reflexo da realidade de muitas mães que enfrentam o desafio de criar filhos autistas sozinhas. Que sua coragem inspire mudanças reais e que a inclusão não seja apenas um discurso, mas uma realidade acessível a todas as crianças autistas e suas famílias.
Por Lílian Fernandes